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Tim Berners-Lee e o Nascimento da Web no CERN

Neves Scholar
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Tim Berners-Lee e o Nascimento da Web no CERN
Foto: Coolcaesar, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Como um computador NeXT em um laboratório de física de partículas na Suíça deu origem ao HTTP, ao HTML e à World Wide Web.

Tim Berners-Lee e o Nascimento da Web no CERN

Em março de 1989, um cientista da computação britânico de trinta e três anos, funcionário do maior laboratório de física de partículas do mundo, entregou a seu supervisor um memorando técnico. O título da proposta era Gestão da Informação: Uma Proposta. O supervisor, Mike Sendall, folheou o texto e escreveu a lápis na capa uma frase que entrou para a história da tecnologia: Vago, mas excitante.

O autor do documento era Timothy John Berners-Lee, e o laboratório em questão era o CERN, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, situado na fronteira entre a França e a Suíça, nas proximidades de Genebra. Naquele memorando humilde e provisório, estava descrita a arquitetura fundamental da World Wide Web, o sistema de informação global que redefiniu para sempre a economia, a cultura e a vida cotidiana da civilização moderna.


O Caos de Informação em um Laboratório Internacional

Para entender por que a Web nasceu em um laboratório de física nuclear e não em uma empresa de telecomunicações do Vale do Silício, é preciso compreender os desafios operacionais do CERN no final da década de 1980.

O CERN reunia milhares de físicos, engenheiros e pesquisadores de dezenas de universidades do mundo inteiro. Esses cientistas colaboravam em experimentos monumentais como o LEP, o Grande Colisor de Elétrons e Pósitrons, antecessor do atual LHC.

O problema era que cada grupo de pesquisa trazia seus próprios computadores, sistemas operacionais e formatos de dados. Havia estações de trabalho Unix, minicomputadores VAX com sistema VMS, computadores pessoais IBM-PC com MS-DOS e modelos Apple Macintosh. Cada ecossistema usava protocolos próprios para troca de arquivos.

Quando um pesquisador descobria uma solução para um detector ou calibrava um instrumento, esse conhecimento ficava isolado em documentos de texto armazenados em servidores incompatíveis. Encontrar uma informação exigia descobrir em qual computador ela estava, qual software permitia abri-la e como converter as permissões de acesso. O próprio Berners-Lee observava que o conhecimento institucional do CERN se perdia continuamente a cada rotação de pessoal.

Inspirado pelo Enquire, um programa de anotações com hipertexto que ele havia desenvolvido para uso pessoal em 1980, Tim Berners-Lee percebeu que a solução não era forçar todos a adotar o mesmo sistema operacional ou hardware, mas criar uma camada comum e universal de documentos interligados que operasse sobre a infraestrutura da internet.


A Diferença Crucial entre Internet e Web

Muitas pessoas utilizam as palavras internet e web como sinônimos intercambiáveis, mas elas representam camadas completamente distintas da tecnologia digital.

A internet é a infraestrutura física e de rede: os cabos de fibra óptica que cruzam oceanos e continentes, os roteadores, os computadores interligados e os protocolos fundamentais como TCP/IP criados na década de 1970 por pioneiros como Vint Cerf e Bob Kahn. A internet é a malha viária global de dados.

A World Wide Web, por sua vez, é uma aplicação que roda sobre a internet. É o sistema de documentos de hipertexto multimídia que viaja pelas estradas da internet. Antes da Web, a internet já existia e era usada para enviar correio eletrônico por SMTP, transferir arquivos brutos por FTP ou acessar terminais remotos por Telnet. O que não existia era uma forma simples, gráfica e unificada de navegar entre documentos distribuídos pelo mundo clicando em referências cruzadas.


Os Três Pilares da World Wide Web

Trabalhando no CERN com o auxílio do engenheiro de sistemas belga Robert Cailliau, Berners-Lee desenvolveu entre 1989 e 1990 as três tecnologias interdependentes que sustentam a Web até hoje:

  • O URI, mais tarde generalizado como URL (Uniform Resource Locator): um sistema universal de endereçamento capaz de identificar de forma inequívoca a localização de qualquer recurso disponível na rede mundial.
  • O HTTP (Hypertext Transfer Protocol): o protocolo de comunicação cliente e servidor que define como os navegadores requisitam páginas e como os servidores enviam os arquivos solicitados pela rede.
  • O HTML (Hypertext Markup Language): a linguagem de marcação que permite estruturar o texto, definir títulos e parágrafos, embutir imagens e, acima de tudo, criar hiperlinks conectando um documento a outro documento qualquer, sem importar onde ele esteja hospedado.

Para implementar essas ideias na prática, Berners-Lee utilizou uma das máquinas mais avançadas de sua época: um computador NeXTcube, desenhado pela NeXT, empresa fundada por Steve Jobs após sua saída temporária da Apple. O sistema operacional NeXTSTEP oferecia um ambiente gráfico moderno de desenvolvimento orientado a objetos, o que permitiu a Tim criar em poucos meses tanto o primeiro servidor web do mundo (o programa CERN httpd) quanto o primeiro navegador e editor gráfico integrado de páginas web, originalmente batizado de WorldWideWeb.

O computador NeXTcube original de Berners-Lee ainda existe e está preservado no acervo do museu do CERN. Em seu gabinete preto de magnésio, uma etiqueta adesiva colada à mão em letras vermelhas ainda alerta os funcionários da época: Esta máquina é um servidor. NÃO DESLIGUE!!.


O Nascimento do Primeiro Site da História

Em 20 de dezembro de 1990, a primeira página web entrou no ar nos computadores do CERN. Em 6 de agosto de 1991, Tim Berners-Lee publicou um resumo público do projeto no grupo de discussão Usenet alt.hypertext, marcando a abertura formal da Web para o mundo exterior.

O endereço daquela primeira página web era http://info.cern.ch/hypertext/WWW/TheProject.html. O site continha explicações concisas sobre o que era a World Wide Web, como navegar nos documentos de hipertexto, como criar páginas próprias em HTML e instruções para configurar servidores web. O CERN restaurou essa página histórica em seu endereço original, permitindo que internautas de todo o planeta a visitem exatamente como ela foi visualizada nos anos noventa.

Nos primeiros anos, o uso da Web expandiu-se rapidamente pelas universidades e centros de pesquisa da Europa e dos Estados Unidos. O grande ponto de inflexão para o público amplo aconteceu em 1993, com o lançamento do navegador Mosaic pelo National Center for Supercomputing Applications (NCSA), na Universidade de Illinois. Desenvolvido por Marc Andreessen e Eric Bina, o Mosaic introduziu uma interface gráfica intuitiva que exibia imagens coloridas diretamente integradas ao fluxo de texto da página, inaugurando a era comercial da internet.


A Decisão que Mudou o Destino do Mundo

Em meio ao entusiasmo crescente pela nova tecnologia, o CERN e Tim Berners-Lee tomaram a decisão mais altruísta e transformadora da história dos negócios modernos.

Em 30 de abril de 1993, o conselho diretor do CERN publicou uma declaração formal disponibilizando o código-fonte fundamental da World Wide Web em domínio público, sem exigir o pagamento de royalties, taxas de licenciamento ou direitos de exclusividade a qualquer pessoa física ou jurídica.

Se Berners-Lee ou o CERN tivessem optado por patentear os protocolos da Web ou cobrar pequenas tarifas por cada link ou servidor ativado, a tecnologia provavelmente teria sido fragmentada por concorrentes corporativos fechados, como a AOL, a CompuServe ou a Microsoft, sufocando a interoperabilidade global. A gratuidade e a abertura absoluta permitiram que qualquer estudante, programador ou empresa em qualquer continente pudesse criar páginas, desenvolver novos navegadores e construir serviços sem pedir permissão a ninguém.

Em 1994, Tim Berners-Lee deixou o CERN para fundar o World Wide Web Consortium (W3C), sediado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), com a missão de conduzir a evolução técnica da Web por meio de padrões abertos, universais e consensuais.

Sir Tim Berners-Lee recebeu incontáveis honrarias globais por sua contribuição histórica, incluindo o título de cavaleiro conferido pela monarquia britânica e o Prêmio Turing de 2016, a maior distinção acadêmica da ciência da computação. Apesar de ter criado a plataforma onde se ergueram os maiores impérios corporativos do planeta, Berners-Lee permaneceu sempre dedicado à defesa de uma web livre, descentralizada e acessível a toda a humanidade.

Para compreender como a infraestrutura física da internet atravessa os oceanos e viabiliza a World Wide Web que acessamos hoje, leia também nosso artigo sobre os cabos submarinos de internet no fundo do mar, e conheça outros temas de tecnologia no catálogo de cursos da Neves Scholar.