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A Internet Mora no Fundo do Mar: Como os Cabos Submarinos Ligam o Mundo

Neves Scholar
8 min de leitura
A Internet Mora no Fundo do Mar: Como os Cabos Submarinos Ligam o Mundo
Foto: Pburka, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Quase todo dado que cruza um oceano viaja por cabos de fibra óptica deitados no leito do mar, e não por satélite. Conheça a história, o funcionamento e os riscos dessa infraestrutura invisível, que liga até Fortaleza a Portugal.

A Internet Mora no Fundo do Mar: Como os Cabos Submarinos Ligam o Mundo

Quando você abre um vídeo hospedado em outro continente, a imagem que aparece na tela quase certamente não passou por nenhum satélite. Ela atravessou o oceano por um cabo da grossura de uma mangueira de jardim, deitado no fundo do mar, a milhares de metros de profundidade.

A ideia de que a internet "vem do céu" é uma das confusões mais comuns sobre tecnologia. Na prática, a imensa maioria do tráfego de dados entre continentes viaja por cabos submarinos de fibra óptica. Levantamentos do setor, como os da consultoria TeleGeography, contam centenas de cabos ativos que, somados, passam de 1 milhão de quilômetros: o suficiente para dar dezenas de voltas na Terra.


Tudo começou com o telégrafo, em 1858

A ideia é mais antiga que a lâmpada elétrica. Em 1858, depois de várias tentativas fracassadas, foi concluído o primeiro cabo telegráfico transatlântico, ligando a Irlanda à ilha de Terra Nova, hoje parte do Canadá. A rainha Vitória trocou mensagens com o presidente americano James Buchanan, e houve festa nas ruas de Nova York.

A alegria durou pouco. O sinal era fraquíssimo, uma mensagem curta levava horas para passar e um engenheiro, tentando forçar a transmissão, aplicou tensão alta demais. Em cerca de três semanas o cabo parou de funcionar.

O primeiro cabo transatlântico durável veio em 1866, lançado pelo Great Eastern, o maior navio do mundo na época. A partir dali, notícias que levavam dez dias atravessando o oceano de navio passaram a chegar em minutos. O mundo encolheu pela primeira vez.

Mais de um século depois, em 1988, entrou em operação o TAT-8, o primeiro cabo transatlântico de fibra óptica. Em vez de pulsos elétricos, ele levava luz. É esse o princípio de todos os cabos modernos.


O que tem dentro de um cabo submarino

Por dentro, um cabo de águas profundas é surpreendentemente fino. No centro ficam alguns pares de fibras de vidro, cada uma da espessura de um fio de cabelo. Em volta delas vêm camadas de proteção: um tubo de metal, fios de aço que dão resistência à tração, uma camada de cobre que conduz energia e, por fim, um revestimento de plástico.

Perto da costa, onde há âncoras, redes de pesca e ondas, o cabo ganha uma armadura extra de aço e muitas vezes é enterrado no leito do mar. No fundo do oceano, onde quase nada o perturba, ele pode ser bem mais fino.

Luz que viaja milhares de quilômetros

A informação viaja como pulsos de luz laser dentro do vidro. Só que nenhuma luz atravessa um oceano inteiro sem perder força. Por isso, a cada algumas dezenas de quilômetros, o cabo tem um repetidor: um amplificador óptico que reforça o sinal sem precisar convertê-lo em eletricidade.

E como os repetidores recebem energia no meio do oceano? Ela vem da própria costa. Estações em terra injetam corrente contínua de alta tensão na camada de cobre do cabo, e essa corrente alimenta todos os repetidores pelo caminho.

Por que não satélite?

Satélites são ótimos para levar internet a lugares remotos, navios e aviões. Mas um único cabo moderno, com vários pares de fibras, transporta uma quantidade de dados que nenhuma constelação de satélites consegue igualar, com atraso menor e custo por dado muito mais baixo. Os dois sistemas se complementam, mas é o cabo que carrega o grosso do tráfego.


Como se coloca um cabo no fundo do mar

O cabo é fabricado em trechos enormes e enrolado dentro de navios especializados, os navios lançadores de cabo. Antes, equipes mapeiam o leito do mar para escolher uma rota que evite vulcões submarinos, encostas instáveis e áreas de pesca intensa.

Depois, o navio avança devagar, soltando o cabo continuamente. Perto da costa, um arado submarino abre uma vala e enterra o cabo. Em águas profundas, ele simplesmente repousa no fundo. O ponto em que o cabo chega à terra se chama estação de ancoragem, e é de lá que os dados seguem para a rede terrestre.


O que estraga um cabo (e não são principalmente os tubarões)

Existem vídeos de tubarões mordendo cabos, e algumas empresas chegaram a reforçar trechos com materiais mais resistentes. Mas os tubarões estão longe de ser o maior problema.

Segundo o Comitê Internacional de Proteção de Cabos (ICPC), acontecem algo entre 150 e 200 falhas em cabos submarinos por ano no mundo, e a maior parte delas é causada por atividade humana acidental: redes de pesca e âncoras de navios arrastadas pelo fundo. Terremotos e deslizamentos submarinos vêm em seguida.

Quando um cabo se rompe, um navio de reparo vai até o local, iça as duas pontas, emenda as fibras a bordo e devolve o cabo ao mar. Enquanto isso, o tráfego é desviado para outros cabos, e por isso a maioria das pessoas nem percebe o problema. Países com poucas conexões, porém, podem ficar dias quase sem internet quando um cabo importante falha.


O Brasil no mapa: Fortaleza, a porta do Atlântico

Pela posição geográfica, no ponto do Brasil mais próximo da Europa, da África e da América do Norte, Fortaleza virou um dos principais pontos de chegada de cabos submarinos do Atlântico Sul.

Dois exemplos mostram a importância da cidade:

  1. SACS (South Atlantic Cable System): inaugurado em 2018, ligou Luanda, em Angola, a Fortaleza. Foi o primeiro cabo a conectar diretamente a África e a América do Sul pelo Atlântico Sul.
  2. EllaLink: em operação desde 2021, liga Fortaleza a Sines, em Portugal. Antes dele, boa parte dos dados entre o Brasil e a Europa dava uma volta pelos Estados Unidos. Com a rota direta, o caminho ficou mais curto e o atraso diminuiu.

Quem são os novos donos do fundo do mar

Durante décadas, cabos submarinos foram construídos por consórcios de operadoras de telefonia. Isso mudou. Hoje, gigantes da tecnologia como Google, Meta, Microsoft e Amazon investem diretamente em cabos próprios ou em parceria, porque precisam ligar os seus centros de dados espalhados pelo mundo.

O Google, por exemplo, batizou vários dos seus cabos com nomes de pioneiros da ciência e da computação. Um deles, inaugurado em 2022 entre os Estados Unidos, o Reino Unido e a Espanha, se chama Grace Hopper, a mesma cientista da história da mariposa que virou o bug mais famoso da computação.

Essa concentração levanta debates importantes: quem controla a infraestrutura física da internet tem poder sobre ela. Por isso, cabos submarinos aparecem cada vez mais em discussões de geopolítica, segurança nacional e soberania digital.


A internet é física

A próxima vez que alguém disser que algo está "na nuvem", vale lembrar que a nuvem tem endereço. Ela mora em centros de dados com milhares de computadores, ligados entre si por cabos de vidro que atravessam oceanos e são emendados à mão por técnicos a bordo de navios.

Entender a infraestrutura por trás da tecnologia é o primeiro passo para pensar com mais clareza sobre ela. E se a curiosidade é saber como funcionam por dentro os programas que usam essa rede, o curso gratuito de Lógica de Programação do zero é um bom começo.